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29/09/2011Recentemente um grupo de crianças pequenas passou por um teste muito interessante. Psicólogos propuseram uma tarefa de média dificuldade, mas que as crianças executariam sem grandes problemas. Todas conseguiram terminar a tarefa depois de certo tempo. Em seguida, foram divididas em dois grupos.
O grupo A foi elogiado quanto à inteligência. "Uau, como você é inteligente!", "Que esperta que você é!", "Menino, que orgulho de ver o quanto você é genial!" ... e outros elogios à capacidade de cada criança.
O grupo B foi elogiado quanto ao esforço. "Menina, gostei de ver o quanto você se dedicou na tarefa!", "Menino, que legal ter visto seu esforço!", "Uau, que persistência você mostrou. Tentou, tentou, até conseguir, muito bem!" ... e outros elogios relacionados ao trabalho realizado e não à criança em si.
Depois dessa fase, uma nova tarefa de dificuldade equivalente à primeira foi proposta aos dois grupos de crianças. Elas não eram obrigadas a cumprir a tarefa, podiam escolher se queriam ou não, sem qualquer tipo de conseqüência.
As respostas das crianças surpreenderam. A grande maioria das crianças do grupo A simplesmente recusou a segunda tarefa. As crianças não queriam nem tentar. Por outro lado, quase todas as crianças do grupo B aceitaram tentar. Não recusaram a nova tarefa.
A explicação é simples e nos ajuda a compreender como elogiar nossos filhos e nossos alunos. O ser humano foge de experiências que possam ser desagradáveis. As crianças "inteligentes" não querem o sentimento de frustração de não conseguir realizar uma tarefa, pois isso pode modificar a imagem que os adultos têm delas. "Se eu não conseguir, eles não vão mais dizer que sou inteligente". As "esforçadas" não ficam com medo de tentar, pois mesmo que não consigam é o esforço que será elogiado. Nós sabemos de muitos casos de jovens considerados inteligentes não passarem no vestibular, enquanto aqueles jovens "médios" obtêm a vitória. Os inteligentes confiaram demais em sua capacidade e deixaram de se preparar adequadamente. Os outros sabiam que se não tivessem um excelente preparo não seriam aprovados e, justamente por isso, estudaram mais, resolveram mais exercícios, leram e se aprofundaram melhor em cada uma das disciplinas.
No entanto, isso não é tudo. Além dos conteúdos escolares, nossos filhos precisam aprender valores, princípios e ética. Precisam respeitar as diferenças, lutar contra o preconceito, adquirir hábitos saudáveis e construir amizades sólidas. Não se consegue nada disso por meio de elogios frágeis, focados no ego de cada um. É preciso que sejam incentivados constantemente a agir assim. Isso se faz com elogios, feedbacks e incentivos ao comportamento esperado.
Nossos filhos precisam ouvir frases como: "Que bom que você o ajudou, você tem um bom coração", "parabéns meu filho por ter dito a verdade apesar de estar com medo... você é ético", "filha, fiquei orgulhoso de você ter dado atenção àquela menina nova ao invés de tê-la excluído como algumas colegas fizeram... você é solidária", "isso mesmo filho, deixar seu primo brincar com seu vídeo game foi muito legal, você é um bom amigo". Elogios desse tipo estão fundamentados em ações reais e reforçam o comportamento da criança que tenderá a repeti-los. Isso não é "tática" paterna, é incentivo real.
Por outro lado, elogiar superficialidades é uma tendência atual. "Que linda você é, amor", "acho você muito esperto, meu filho", "como você é charmoso", "que cabelo lindo", "seus olhos são tão bonitos". Elogios como esses não estão baseados em fatos, nem em comportamentos, nem em atitudes. São apenas impressões e interpretações dos adultos. Em breve, crianças como essas estarão fazendo chantagens emocionais, birras, manhas e "charminhos". Quando adultos, não terão desenvolvido resistência à frustração e a fragilidade emocional estará presente.
Homens e mulheres de personalidade forte e saudável são como carvalhos que crescem nas encostas de montanhas. Os ventos não os derrubam, pois cresceram na presença deles. São frondosos, copas grandes e o verde de suas folhas mostra vigor, pois se alimentaram da terra fértil.
Que nossos filhos recebam o vento e a terra adubada por nossa postura firme e carinhosa.
Marcos Meier é mestre em Educação, psicólogo, professor de Matemática e especialista na teoria da Mediação da Aprendizagem em Jerusalém, Israel.
30/08/2011
Qualquer curso pode ser feito por qualquer jovem. Mesmo. De preferência, um que não o faça sofrer muito.
NESTE MOMENTO, muitos jovens estão preocupados ou ansiosos em demasia com o que os espera no futuro próximo em relação aos estudos.
São eles os que irão iniciar o ensino médio no próximo ano letivo e os que estão prestes a terminar o mesmo ciclo. O motivo? A escolha que terão de fazer para o ingresso na faculdade.
Eles acreditam existir um curso -UM!- que dará sentido à vida profissional deles. A escolha que farão terá de ser, portanto, exata, precisa. Não podem errar, não podem vacilar, não podem hesitar. Essa decisão, tomada perto dos 17 anos, deverá ser definitiva.
E dá-lhe orientação profissional, vocacional e coisa que o valha. Apesar disso, bem perto dos 45 minutos do segundo tempo, a maioria deles estará indecisa.
E mesmo os que fizerem uma escolha duvidarão dela rapidamente. Cerca de 40% dos universitários desistem do curso que escolheram no primeiro ano da faculdade.
O que foi que fizemos com os jovens para que eles caíssem nessa roubada? Contamos historias fantásticas a respeito da vida adulta profissional, construímos fábulas muito bem estruturadas sobre a vida e o trabalho, apontamos o êxito como meta de vida, associamos prazer no trabalho com felicidade, não é verdade? Isso sem falar no conto da vocação.
E eles sofrem com as dúvidas mais do que certas que surgem nessa hora. Claro! Em um mundo com tantas profissões novas somadas às tradicionais mais as já desgastadas etc., o que priorizar?
Depois, como reagimos quando eles entram na faculdade e não conseguem se comprometer mais com os estudos nem dar sentido ao que estão fazendo e comunicam isso de maneira um tanto quanto desajeitada?
Sentimos pena deles por terem de fazer uma escolha tão importante na vida assim, precocemente.
É por isso que virou moda, na faixa de população com alto poder aquisitivo, fazer o filho tirar um ano sabático antes de escolher a faculdade e prestar o vestibular.
"É um tempo bom para amadurecer", me disse um pai. Mas não é justamente para isso que serve toda a adolescência? Então, por que fizemos tanta pressão nos primeiros anos da vida deles? Por que exigimos que eles rendessem nos estudos na fase em que deveriam brincar? Talvez o sabático seja uma compensação que queremos oferecer em relação aos anos de infância que roubamos deles, não é verdade?
O fato é que esses filhos que foram jogados no mundo do conhecimento sistematizado ainda na primeira infância, fortemente poupados da realidade o tempo todo, impedidos de crescer na segunda parte da infância e abandonados aos seus caprichos na adolescência não conseguem nem sequer enxergar o mundo em que eles vivem.
Esse mundo, que muda tão rapidamente, tão pleno de diversidades, complexidades e possibilidades, permite um leque enorme de trabalho dentro de uma mesma profissão. Então, por que tanto drama para escolher um curso?
Qualquer curso pode ser feito por qualquer jovem. Qualquer mesmo. De preferência, um que não imponha a ele sofrimento demais considerando suas habilidades, seus interesses e suas preferência pessoais.
E depois? Ora, chegada a maturidade, sempre há saídas virtuosas e honrosas para qualquer um. É só uma questão de comprometimento, de responsabilidade consigo mesmo, de esforço e perseverança. Mas tudo isso tem sido uma moeda rara na atualidade.
Vamos facilitar a vida dos mais novos, vamos tornar essa escolha menos importante. Um curso universitário é só um curso, apenas isso. Jamais será definitivo na vida de alguém.
Fazer o curso do começo ao fim, com todas as dificuldades, os dissabores e as frustrações encontrados no percurso é que pode ser algo valioso para o amadurecimento do jovem, muito mais do que o curso escolhido.
Simples assim.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
18/07/2011
''Concluiu-se que distinguir alunos e escolas por um sistema de notas fica mais fácil. E mais distorcido''
Tem um sujeito americano, meio caipira, que manda no mundo do vinho francês. Até 15 anos atrás, soaria risível. Robert Parker Jr., que nem gostava de vinho, achou que o sistema subjetivo que falava em gosto de lápis molhado e amora podre estava difícil demais. Fez a coisa americana: inventou uma pontuação. Hoje, ninguém manda como ele nesse ramo.
O problema é que apareceu o vinho “parkerizado”, que manipula taninos e açúcar para ficar do jeitinho que o Parker gosta. O Enem, como o vestibular, é “parkerizado”. Concluiu-se que é necessário um sistema de notas para distinguir alunos e escolas. Assim tudo fica mais fácil. E distorcido. Lembro dos processos de admissão quando resolvi fazer mestrado. Nos EUA, labutei para tirar boa nota nos exames e não fiz entrevista.
Na Universidade de Oxford, na Inglaterra, disseram-me que não havia exame e que precisava achar um professor que me quisesse como aluno! Foi o que fiz, e “entrei” porque um senhorzinho que me encontrou num pub simpatizou com minha tese. “Parkerizadas”, as escolas se transvestem com boas notas, e isso é uma fraude intelectual.
Algumas das mais bem pontuadas fazem um funil danado dos dois lados, o de professores e o de alunos. Selecionam vetustamente (não é vestibulinho, mas é similar) os alunos para garantir material bom de prova. Do lado dos professores, fazem uma seleção direcionada. Depois, primam por simulados que visam exatamente treiná-los no que costuma cair nas provas.
Ora bolotas, assim qualquer um faz. É, aliás, um vexame que tirem nota 6 no Enem. Qualquer nota menor que 10, com esse preparo “parkerizado”, é um fracasso. As escolas públicas, que não podem escolher alunos e professores, não podem concorrer com isso.
A solução está na modernidade: fazer com que alunos decorem fórmulas, datas e fatos é de uma bizantinice primorosa. As provas têm, urgentemente, de ser feitas com notebook à disposição. As questões devem se concentrar na capacidade de questionar, procurar e interpretar, abolindo de vez esse caminho emburrecedor da vestibulice.
Impera a preguiça institucional e a pressão anacrônica dos pais, resultando em soluções antigas e doentes. Há muita vinha de qualidade Brasil afora, e certamente não está reservada às elites que procuram capital social e enquadramento nas escolas que fabricam garrafas para o Enem.
É vergonhoso fazer tanta preparação para algo que sequer tangencia o mundo do trabalho. Dessas uvas nativas poderia vir muito vinho de qualidade, com mesclas criativas e importantes. Deixemos o Parker para trás. Mirar nota, como sabemos, não é para francês -é para inglês ver.
RICARDO SEMLER, 52, é empresário. Foi scholar da Harvard Law School e professor de MBA no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Foi escolhido pelo Fórum Econômico de Davos como um dos Líderes Globais do Amanhã. Escreveu dois livros (“Virando a Própria Mesa” e “Você Está Louco’) que venderam juntos 2 milhões de cópias em 34 línguas.
15/06/2011
Quando eu era menino, na escola as professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será um grande pintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as idéias que moram na cabeça do pintor. São as idéias dançantes na cabeça que fazem as tintas dançar sobre a tela.
Por isso, sendo um país tão rico, somos um povo tão pobre, somos pobres em idéias. Não sabemos pensar. Nisto nos parecemos com os dinossauros, que tinham excesso de massa muscular e cérebros de galinha. Hoje nas relações de troca entre os países, o bem mais caro, o bem mais cuidadosamente guardado, o bem que não se vende, são as idéias. É com as idéias que o mundo é feito. Prova disso são os tigres asiáticos, Japão, Coréia, Formosa, que pobres de recursos naturais, se enriqueceram por ter se especializado na arte de pensar.
Minha filha me fez uma pergunta: “O que é pensar?”. Disse-me que esta era uma pergunta que o professor de filosofia havia imposto à classe. Pelo que lhe dou os parabéns. Primeiro, por ter ido diretamente à questão essencial. Segundo, por ter tido a sabedoria de fazer a pergunta, sem dar a resposta. Porque se tivesse dado a resposta, teria com ela cortado as asas do pensamento. O pensamento é como a águia que só alça vôo nos espaços vazios do desconhecido. Pensar é voar sobre o que não se sabe. Não existe nada mais fatal para o pensamento que o ensino das respostas certas. Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas. As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem ent rar pelo mar desconhecido.
E, no entanto, não podemos viver sem respostas. As asas, para o impulso inicial do vôo, dependem dos pés apoiados na terra firme. Os pássaros, antes de saber voar, aprendem a se apoiar sobre os seus pés. Também as crianças, antes de aprender a voar têm de aprender a caminhar sobre a terra firme.
Terra firme: as milhares de perguntas para as quais as gerações passadas já descobriram as respostas. O primeiro momento da educação é a transmissão desse saber. Nas palavras de Roland Barthes: “Há um momento em que se ensina o que se sabe…” E o curioso é que este aprendizado é justamente para nos poupar da necessidade de pensar.
As gerações mais velhas ensinam às mais novas as receitas que funcionam. Sei amarrar os meus sapatos, automaticamente, sei dar o nó na minha gravata automaticamente: as mãos fazem o trabalho com destreza enquanto as idéias andam por outros lugares. Aquilo que um dia eu não sabia me foi ensinado; eu aprendi com o corpo e esqueci com a cabeça. E a condição para que as minhas mãos saibam bem é que a cabeça não pense sobre o que elas estão fazendo. Um pianista que, na hora da execução, pensa sobre os caminhos que seus dedos deverão seguir, tropeçará fatalmente. Há a história de uma centopéia que andava feliz pelo jardim, quando foi interpelada por um grilo: “Dona centopéia, sempre tive a curiosidade so bre uma coisa: quando a senhora anda, qual, dentre as s uas cem pernas, é aquela que a senhora movimenta primeiro?”. “Curioso”, ela respondeu. “Sempre andei, mas nunca me propus esta questão. Da próxima vez, prestarei atenção”. Termina a história dizendo que a centopéia nunca mais voltou a andar.
Todo mundo fala, e fala bem. Ninguém sabe como a linguagem foi ensinada e nem como ela foi aprendida. A despeito disso, o ensino foi tão eficiente que não preciso pensar em falar. Ao falar, não sei se estou usando um substantivo, um verbo ou um adjetivo, e nem me lembro das regras da gramática. Quem, para falar, tem que se lembrar dessas coisas, não sabe falar. Há um nível de aprendizado em que o pensamento é um estorvo. Só se sabe bem com o corpo aquilo que a cabeça esqueceu. E assim escrevemos, lemos, andamos de bicicleta, nadamos, pregamos prego, guiamos carros: sem saber com a cabeça, porque o corpo sabe melhor. É um conhecimento que se tornou parte inconsciente de mim mesmo. E isso me poupa do trabalho de pensar o já sabido. Ensinar, aqui, é inconscientizar .
O sabido é o não pensado, que fica guardado, pronto para ser usado como receita, na memória deste computador que se chama cérebro. Basta apertar a tecla adequada para que a receita apareça no vídeo da consciência. Aperto a tecla moqueca. A receita aparecerá no meu vídeo cerebral: panela de barro, azeite, peixe, tomate, cebola, coentro, cheiro-verde, urucum, sal, pimenta, seguidos de uma série de instruções sobre o que fazer.
Não é coisa que eu tenha inventado. Me foi ensinado. Não precisei pensar. Gostei. Foi para a memória. Esta é a regra fundamental desse computador que vive no corpo humano: só vai para a memória aquilo que é objeto do desejo. A tarefa primordial do professor: seduzir o aluno para que ele deseje e, desejando, aprenda.
E o saber fica memorizado de cor – etimologicamente, no coração -, à espera de que o teclado desejo de novo o chame de seu lugar de esquecimento.
Memória: um saber que o passado sedimentou. Indispensável para se repetir as receitas que os mortos nos legaram. E elas são boas. Tão boas que nos fazem esquecer que é preciso voar. Permitem que andemos pelas trilhas batidas. Mas nada têm a dizer sobre os mares desconhecidos. Muitas pessoas, de tanto repetir as receitas, metamorfosearam-se de águias em tartarugas. E não são poucas as tartarugas que possuem diplomas universitários. Aqui se encontra o perigo das escolas: de tanto ensinar o que o passado legou – e ensinou bem – fazem os alunos se esquecer de que o seu destino não é passado cristalizado em saber, mas um futuro que se abre como vazio, um não-saber que somente pode ser explorado com as asas do pensamento. Compreende-se então, que Barthes tenha dito q u e, seguindo-se ao tempo em que se ensina o que se sabe, deve chegar o tempo em que se ensina o que não se sabe.
Rubem Alves é psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro. É autor de livros e artigos abordando temas religiosos, educacionais e existenciais, além de uma série de livros infantis.
13/03/2008
Duas notícias ligadas à educação escolar dos filhos chamaram atenção nas últimas semanas. Na primeira, foi divulgado que um casal responde a dois processos na justiça por praticar com os filhos o método chamado "escola em casa", conhecido em vários países, principalmente nos EUA, mas proibido no Brasil. A segunda informou que um garoto de apenas oito anos passou no vestibular de um curso universitário.
Em ambos os casos, os pais lutam pelo que consideram um direito. Os primeiros querem continuar com a educação escolar dos filhos em casa, já que, do ponto de vista deles, o resultado tem sido excelente. O que eles consideram prova disso é o fato de os filhos de 13 e 14 anos terem sido aprovados em exame vestibular com excelente classificação. Os segundos lutam para que o filho possa freqüentar o curso em que foi aprovado, situação negada pela instituição universitária.
A primeira questão que essas notícias levantam é sobre a função da escola. Pelo jeito, os pais não estão muito confiantes em delegar a essa instituição a educação dos filhos. Aliás, parece mesmo que o trabalho da escola ficou reduzido ao ensino do conhecimento necessário para ser aprovado no vestibular, e alguns pais acreditam que fazem isso melhor do que a escola. Mas será só isso o que a escola deve proporcionar?
A criança deve freqüentar a escola por vários motivos. Um deles é que ela precisa, para se tornar um sujeito livre e autônomo, libertar-se da família. A ligação amorosa entre pais e filhos precisa terminar em separação para ser considerada exitosa, e a escola é a instituição que faz melhor a transição da família para o mundo, como diz de maneira especialmente feliz a pensadora Hannah Arendt.
Deixar de pertencer só a um mundo em que as relações se originam na rede privada de convivência e passar a integrar um grupo maior, diverso e impessoal faz parte do aprendizado da cidadania. Respeito, justiça e solidariedade são valores que se aprendem na escola.
Em seu livro "O Valor de Educar", Fernando Savater afirma: "O sistema democrático tem de se ocupar do ensino obrigatório dos neófitos para assegurar a continuidade e a viabilidade de suas liberdades; isto é, por instinto de conservação. Educamos em defesa própria. Seus pais queiram ou não?
Pois sim, queiram ou não. Os filhos não são propriedades dos pais, nem simples objetos para que estes satisfaçam suas veleidades, por mais amorosas que sejam, ou realizem experiências irrestritas... A criança vai à escola para se pôr em contato com o saber de sua época, não para ver confirmadas as opiniões de sua família".
A citação nos leva ao segundo ponto que as notícias levantam: muitos pais têm educado os filhos como se fossem sua propriedade. Não são: eles são os representantes de nosso futuro e dizem respeito a todos nós. Estamos todos implicados com fatos que levam crianças a serem impedidas de viver a infância até o fim e com atitudes que buscam evitar que elas enfrentem as dificuldades, os aprendizados e as frustrações que a vida escolar impõe.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
25/10/2007
Estamos trocando a educação para a liberdade responsável e para a autonomia pelos recursos tecnológicos mais avançados. O caminho é muito sedutor porque bem mais simples e com custos bem menores.
Os pais, preocupados com a segurança dos filhos – ah, o que não temos feito em nome desse item! – acabam consumindo, sem grandes reflexões, as idéias mais absurdas. Como essa, por exemplo, do controle da localização dos filhos pelo celular ou outra, a de poder observar – espiar, melhor definindo - o filho no espaço escolar pela Net.
Ora, ora! Quem diria que a geração pós Segunda Guerra, que lutou pela democracia e pela liberdade, que bradou contra a tutela da família, chegasse a esse ponto com os próprios filhos? "Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais"...?
Bem, o fato é que o princípio contido nesse tipo oferta é simples: para uma situação difícil, como a inevitável saída dos filhos para o mundo, que provoca temores e sofrimentos nos pais, uma saída simples, rápida e eficiente.
Eficiente para acalmar as aflições dos pais, só isso. Eficiente, ainda, para provocar efeitos colaterais dos mais indesejáveis e outros riscos. Esses são recursos que deveriam ser marcados com tarja preta, portanto. Vejamos.
Em primeiro lugar, se há quem controle a vida do jovem, por que haveria ele de se responsabilizar pelo autocontrole? Mais fácil deixar para os pais essa tarefa difícil já que eles assim o desejam. Em segundo, há a dificuldade da construção da privacidade. E sem privacidade, não há intimidade.
E há mais, ainda: se os pais não acreditam que o filho seja capaz de avaliar situações de risco, de se proteger, de caminhar com as próprias pernas, por que ele mesmo acreditaria?
Pensando bem, é uma bobagem preocupar-se com isso. Os jovens sempre constroem respostas inteligentes para propostas medíocres. Eles encontrarão, facilmente, muitos modos de burlar tais dispositivos, caso queiram. Não são eles os melhores no uso das novas tecnologias?
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
23/08/2007
Uma leitora enviou correspondência em que comenta as reuniões de pais nas escolas. Disse que vai a todas e que sai horrorizada porque alguns pais se acham no direito de cobrar da instituição escolar atitudes educativas que ela considera dever da família. Outro leitor contou que ouviu pais se manifestarem totalmente contrários às posições da escola e que não entende como eles podem manter o filho na mesma. Já é hora, portanto, de avançarmos na reflexão da delicada relação escola-família.
Esses nossos leitores, muito sagazes, constataram que há um grande número de pais, notadamente entre os que matriculam os filhos em instituição particular, que acreditam poder exigir uma escola sob medida para seus filhos.
Isso leva a pedidos ou exigências dos mais absurdos, como a troca de turma para o filho estar com amigos, troca de professor de sala ou de disciplina, maior ou menor quantidade de lição a ser feita em casa etc. Isso sem falar da relação pouco respeitosa que os pais mantêm com as regras de funcionamento da escola, tais como horário de chegada e de saída, datas e prazos, uso de uniforme, uso de telefone celular etc.
Por que tais solicitações são absurdas? Porque a escola é o lugar de transição entre família e mundo em que os alunos aprendem, entre outras coisas, a viver sem escolher. Essa é uma das características da vida pública: não escolhemos os colegas com quem iremos trabalhar, as pessoas que estarão ao nosso lado no trânsito, as datas para pagar contas e tributos e as leis que temos de respeitar.
Precisamos nos lembrar sempre de que a escola tem o dever de preparar os mais novos para a cidadania. Por isso, demandas dos pais que privilegiam o âmbito privado não fazem sentido algum quando consideramos esse exercício que os filhos devem fazer ao freqüentar a escola.
Esse aprendizado também tem sido dificultado pelo constatado declínio do trabalho educativo das famílias. Os alunos chegam à escola muitas vezes sem o processo básico de educação em curso. Mas, ao contrário do que muitos professores pensam, isso se deve pouco ao descaso ou à ausência dos pais e mais à nossa cultura que "juveniliza" os adultos. É que os jovens -não me refiro à idade cronológica- têm dificuldades de estabelecer relações educativas com os filhos.
Tal fato tem gerado muitas reclamações por parte da escola, porque os mestres, tanto quanto os pais, também estão submetidos a essa cultura. Uma coisa é certa: pais e professores têm objetivos comuns e precisam constantemente recordar que é a educação dos mais novos o foco de sua tarefa educativa. A maioria dos conflitos entre eles não considera esse ponto, e sim anseios próprios de cada um deles.
Enquanto tivermos pais aflitos com o que consideram sofrimento dos filhos na escola e em busca de soluções fáceis e escolas mais comprometidas com novas metodologias e com a busca de determinados perfis de alunos em vez de com o uso do rigor e da exigência para alcançar um ensino de qualidade, a relação entre ambos será, necessariamente, conflituosa e desastrosa. Quem perde são os mais novos, que deveriam nortear todo nosso trabalho.
Matéria retirada do jornal Folha de São Paulo, de 23/08/07
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
26/10/2006
Muitos pais enfrentam uma situação tensa: esta é a hora de tomar grandes decisões a respeito da matrícula escolar para o próximo ano.
O ato de escolher em geral não é fácil, e isso fica mais evidente quando o que está em questão é o anseio de uma boa educação e da melhor formação para o filho enfrentar o futuro.
Para complicar, os pais têm de dar conta de dois tipos de pressão: as internas e as externas. As primeiras dizem respeito às suas aspirações em relação à vida escolar do filho. Os pais querem acertar e, para tanto, buscam algumas garantias.
Esse movimento é salutar, mas tem provocado uma reação curiosa: os impasses a que se chega. Alguns leitores que escreveram a esse respeito mostram que terminaram, ao que parece, num beco sem saída.
Já as pressões externas são cruéis.
De um lado, jornais e revistas fazem reportagens minuciosas a respeito dos vários tipos de escola, dos métodos, das propostas político-pedagógicas, do ensino laico e do confessional, da inclusão etc. Eu li várias dessas matérias, e elas me deixaram perplexa. Cheguei à conclusão de que os pais talvez devessem fazer um curso de pedagogia em dez aulas para conseguir entender e utilizar tanta informação em linguagem especializada.
E as pressões sociais? São expressas pelas propagandas das escolas, pelos rankings escolares, pelas opiniões de profissionais e de conhecidos, entre várias outras. Isso sem falar nos testes que muitas escolas fazem para selecionar seus futuros alunos e do "feedback" que dão aos pais. A mãe de um garoto que iniciará o ensino fundamental recebeu da escola um parecer que a deixou inquieta.
Famosa por aprovar alunos nos vestibulares concorridos, a escola informou que seu filho não tinha o perfil adequado para freqüentá-la.
Salve-se quem puder com tanta confusão com aparência sofisticada! E o que os pais precisam realmente saber? Vamos simplificar a questão.
Item um: escola boa é a que se dispõe a atender qualquer tipo de criança ou de jovem. As escolas que têm um perfil ideal de aluno são as que têm objetivos mais importantes do que o de educar. São as que querem atender apenas os que já chegam "formatados" às finalidades a que se propõem.
Esse é o tipo de escola que exclui, não importa qual o tipo de exclusão que pratica. Os pais precisam considerar que o filho muda sempre. Isso significa que, a qualquer momento, um aluno pode experimentar um perfil diferente do inicialmente vivenciado e ser excluído.
Item dois: métodos são apenas procedimentos que a escola utiliza para chegar a determinado resultado. Qual o resultado sensato a se esperar de qualquer método? Que seus alunos aprendam a disciplina necessária para o acesso ao conhecimento sistematizado e os requisitos importantes para a convivência social com respeito, justiça e solidariedade. Para tanto, não é preciso conhecer o método baseado na teoria socioconstrutivista, montessoriana, waldorfiana etc.
Item três: a melhor escola é aquela em que a família confia e à qual delega autoridade educativa. Vale um lembrete: escola perfeita não existe.
Item quatro: as crianças e os jovens têm condições de enfrentar quaisquer adversidades da vida escolar. Para tanto, basta que freqüentem uma escola que considere as dificuldades como desafios a enfrentar, e não como obstáculos ao ensino.
Item cinco: como escola não é clube, a ambiência física importa menos do que a ambiência educativa. Por último: como são os professores que praticam a educação escolar, eles devem ser respeitados e considerados pela escola.
A escolha da escola é mais simples do que parece. O que realmente tem valor é que os pais tomem sua decisão e a honrem, pelo menos até que o pacto de confiança inicial seja desfeito irremediavelmente.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)


